ID, Id ou id - afinal, como se fala isso?
Id, essencialmente, é uma abreviação do termo inglês “identifier” (ou “identity” ou, ainda, “identification”) que, em nossa língua quer dizer “identificador” ou “identidade” e é comumente usado para fazer referência a um código ou recurso de identificação de uma entidade (uma pessoa, um item de banco de dados, uma sessão de navegação, etc.) em um sistema de TI, podendo ser numérico, alfanumérico ou apenas texto. Em suma, um identificador digital.
Sistemas, em Informática, funcionam, em geral (mas nem sempre) com base em bancos de dados. E para sistemas web, utilizamos, via de regra, bancos de dados relacionais (que surgiram por volta de 1960/1970) como o MySQL que funcionam, por sua vez, à base de uma estrutura de tabelas com linhas e colunas às quais são atribuídos nomes (identificadores alfabéticos ou alfanuméricos) para que possamos instruir um aplicativo sobre como interagir com os dados (registros) guardados nelas, sendo que, para cada coluna, precisamos definir um tipo de dado de armazenamento, que pode ser número, data, string (texto), etc., porque o banco precisa saber como dar tratamento a eles.
Meu primeiro contato com o termo "id" (ou Id ou ID, como preferir) foi instalando e testando scripts de outros desenvolvedores em meus sites, já com os bancos de dados prontos. Nas tabelas destes bancos já havia a convenção de uso de “id” enquanto identificador de chave primária (PRIMARY KEY) mas, até então, nunca tinha ouvido ninguém falá-lo e, portanto, sempre pronunciei “Íd” que, como comentado acima, entendia como uma abreviação de “identifier“. Nunca questionei isso porque para mim era o óbvio.
Passeio rápido pela programação
Mas nessas primeiras experiências com MySQL eu não tinha muita regra para nominar colunas de tabela, assim, seguindo os exemplos que via, escrevia tudo em minúsculas intercaladas por maiúsculas ou underscores (o MySQL não aceita espaços nem hífens para nomes, apenas underscores e caracteres alfanuméricos), mais ou menos como nestes exemplos: “id”, “id_user”, “idAutor”, “texto1”, “texto2”, “img_min”, “img_max”, etc. E misturava inglês com português sem nenhuma regularidade, o que resultava numa certa salada de padrões de nomenclaturas.
Para quem tem pouco ou nenhum conhecimento sobre o tema, seguem exemplos abaixo de requisições no BD mostrando alguns usos comuns de “id”:
A) Criação de uma tabela de dados:
CREATE TABLE usuarios ( id INT PRIMARY KEY AUTO_INCREMENT, nome VARCHAR(100)... );
Aqui, através de código, crio uma tabela “usuarios” definindo as propriedades das colunas (id, nome, idade, etc.).
B) Inserção:
INSERT INTO usuarios (nome, idade) VALUES ('João', 30);
Aqui, insiro, em uma linha de tabela, um novo usuário, definindo seu nome e idade.
C) Seleção:
SELECT nome,idade FROM usuarios WHERE id = 10;
Aqui, recupero nome e idade de um usuário de id =10 para ser utilizado em algum lugar.
D) Atualização:
UPDATE usuarios SET idade = '31' WHERE id = 10;
Aqui, atualizo a idade do usuário de id=10 para 31 anos.
Perceba que na inserção de um item no BD (B) eu não preciso definir o valor de “id” porque na criação da tabela (A), eu já o havia setado como “auto increment”, isso quer dizer que o banco já cria o valor numérico (INT) de “id” automaticamente a partir do último valor postado dentro dessa coluna “id” já criada antes. Se o valor do “id” do usuário anterior era 9, por exemplo, agora, esse novo usuário passa a ter o valor de 10. Já “nome“ e “idade”, do exemplo, são colunas na tabela usuários que, durante o cadastro (uma nova linha na tabela), passam a ter como referência o novo valor de “id” (que é sempre um número inteiro como “1,2... 5,6,7... 10,11,12, etc.”) que, nesse caso, é 10.
Mas um id de identificação de um usuário no sistema pode ser diferente de seu id no banco de dados. Assim, eu posso cadastrar uma outra coluna na mesma tabela como “id_user” e definir um valor baseado em “nome+data”, por exemplo, para tentar criar um identificador único de usuário - que, obrigatoriamente, será diferente desse “id” de trabalho do BD (que é apenas um número inteiro). Então, para tratar os dados do usuário no banco eu posso utilizar o valor do “id” que foi gerado automaticamente e para o login no sistema eu posso utilizar o valor do “id_user”, por exemplo, como uma credencial.
Na maior parte de exemplos de programação que encontramos pela web, o “id” é sempre um nome escrito em letras minúsculas (mas não por alguma obrigatoriedade, e sim por mero costume, mais ou menos como nos exemplos mostrados acima). O mesmo acontece com suas variações como “id_post”, “id_user”, ”user_id”, “post_id”, “id_qualquer_coisa” ou outros nomes de coluna.
Ok, alguém pode dizer que nunca usa minúsculas, apenas maiúsculas, e que por isso, essa informação não procede, mas pela quantidade de exemplos que vejo (que não é pequena), a impressão que fica é essa.
Então, deu para perceber como são as aplicações básicas de “id” e, também, que o termo se expandiu para deixar de simbolizar apenas um valor incremental num banco de dados para ser também sinônimo de um código mais universal (e, por vezes. mais complexo) que é independente de seu tipo de dado e que pode representar um identificador de qualquer coisa como um item de BD, o número de um item em um processo, um identificador de usuário, de produto, etc.
Indo para a linguística
Passados vários anos, ao ensinar a um colega designer alguns princípios de programação e citando “Íd” (id), eis que ele me “corrige” dizendo algo como “O certo é “Ái Dí” (ID). Você que já trabalha com programação deveria saber isso...”, e eu lembro que algumas poucas vezes antes já tinha ouvido essa pronúncia, mas, sinceramente, nunca tinha dado atenção, principalmente por entender “id” como abreviação e não como sigla.
No português, fazemos uma pequena diferenciação entre abreviação e abreviatura: Abreviatura seria uma redução de palavra finalizada com ponto, mas que é lida como a palavra original (ex.: dr. é lida como doutor), já abreviação é uma redução definida por costume popular e que não leva ponto abreviativo, como em foto (por fotografia) e que é lida como na sua redução (ou seja, foto = foto). Leia mais aqui neste texto.
“Id”, como já dito, é uma redução de “identity” ou “identifier” (esse último, me parecendo o mais apropriado) mas que não tem um marcador de redução (o ponto), o que dá a entender que ele deve ser pronunciado como uma palavra independente (“Íd”) e não como a palavra que o originou (“áidentifáier”). “Id”, independentemente da caixa em que pode ser escrito (se com maiúsculas, minúsculas ou ambas), nunca é uma sigla, mas uma abreviação. E quando eu digo que “Id” não é sigla é devido ao fato de já ter pesquisado bastante e não ter encontrado nada que contraindicasse isso.
Mas suponha que, em nossa língua, criássemos uma sigla como I.D., a partir de um termo nosso como “Identificador Digital”. Poderíamos ler as letras em separado articulando “Í Dê”, afinal, ela possui os devidos pontos de abreviação e se originou de duas palavras. Só que o emprego de ponto para a escrita de siglas caiu em desuso, portanto, para sermos gramaticalmente corretos, escreveríamos apenas “ID” e, provavelmente, pronunciaríamos “Íd”, como já fazemos com nossos conhecidos acrônimos (siglas que podem ser lidas como palavras - como BIOS, GIF e RAM [em inglês], ou CEP, MEC e Detran [em português]).
Só que se Identificador Digital pudesse ser traduzido para o inglês e transformado em sigla, aí então teríamos D.I. (Digital Identifier), o que justificaria sua pronúncia como “Dí Ái” (exatamente o contrário de "Ái Dí"), por exemplo (ou até “Dái” se seus pontos fossem retirados e assim pudesse ser lida como uma única palavra - tal qual “Lady Di” [Lêidi Dái]).
Para o caso de “Id”, porém, se ela surgiu de apenas uma palavra e não de duas, então, não tem muita razão lógica pronunciá-la como sigla e, ainda que nos utilizássemos da pronúncia da palavra original (“áidentifáier”), ela, então, seria lida como “Áid”, com tonicidade no início e não no fim. E, a despeito disso, derivar uma palavra não implica necessariamente seguir uma regra de pronúncia. Veja que termos como “child” (tcháild) e “sign” (sáin) originaram “children” (tchíldren) e “signature” (sígnatchiúr), que não derivam, obrigatoriamente, as mesmas pronúncias. Não sei explicar o porquê para estes casos - apenas percebo que não acontece.
Dessa forma, não vejo o motivo de “id” não poder ser falado como uma palavra, como ocorre com “it”, “if” e ”is”, por exemplo, e ter um modelo de pronúncia similar a essas três. Inclusive, no inglês, assim como no português, a palavra homônima “id” existe (escrita em minúsculas) e, até onde sei, é pronunciada “Íd”. Ela vem do alemão e, na psicanálise, simboliza algo como a representação de nossos impulsos, algo que não temos um controle racional e que entra em conflito com nosso “ego” (eu). Mas não é o caso aqui.
E a existência de um termo com uma pronúncia similar não anula a existência de outro. Veja que se você diz “Ontem provei uma manga deliciosa!", ninguém vai achar que você chupou a manga da camisa de sua namorada apenas porque os substantivos são homônimos. Se entendemos o contexto, já deduzimos o significado.
Outra coisa que não faz muito sentido: quando lemos nomenclaturas de colunas como “nome_usuario” e “nome_cliente”, por exemplo, lemos por extenso (“nome usuário” e “nome cliente”, respectivamente), correto? Da mesma forma, para colunas nomeadas como “nm_usuario” e “nm_cliente” teríamos de ler iniciais+nome como “êne ême usuário” e “êne ême cliente”, porque, obrigatoriamente, termos que não podem ser pronunciados como palavras teriam que ser falados com suas letras separadas. Mas, se para um caso como “cod_cliente” (em que temos uma palavra abreviada) falaríamos automaticamente “cód cliente” (respeitando a pronúncia da redução), porque para o caso de “id_cliente” teríamos que falar “ái dí cliente” (ao invés de “íd cliente”), novamente interpretando uma redução como sigla?
Para o caso específico da sigla ID, porém, seria mais correto atribuí-la a “Identity Document”, que já é o documento de identidade que nós humanos (e não máquinas) utilizamos em nosso dia a dia. Só que um Identity Document (ID) é bem diferente de um Digital Identifier (DI) que é o mesmo que o nosso tão popular “ID”, e que, por sua vez, é diferente de “Digital ID - Digital Identity” (DI), que é uma identidade digital que pode ser atribuída tanto para uma pessoa quanto para uma empresa. Louco, não?
E só para finalizar, atualmente, eu percebo que pessoas não ligadas diretamente a TI utilizam naturalmente a nomenclatura “id” como um código identificador genérico (de um item de tarefa ou de usuário no sistema, por exemplo, o que está correto), porém, sem fazer a menor ideia de como este se iniciou ou passou a ser utilizado e atribuindo-lhe a pronúncia “Ái Dí” apenas porque já o receberam assim.
Então, a deduzir pelo entendimento popular, pode-se considerar que:
• ID tem a pronúncia convencionada “Ái Dí” em TI.
• Id também tem a pronúncia convencionada “Ái Dí” em TI.
• id tem a pronúncia “Íd” na psicanálise / e pronúncia “Ái Dí” em TI.
E se a gente entende língua como algo feito a partir de abstração e convenção, ou seja, as palavras não têm uma justificativa lógica para serem o que são, então, dá para se imaginar que, independentemente da lógica da pronúncia de “id” (ou Id ou ID, como achar melhor), ela tem o direito de existir desta forma apenas por convenção e pela passagem de um tempo em que ninguém parou para se questionar ou pesquisar sobre (mesmo porque, para as pessoas em geral, isso não faria nenhum sentido), o que acabou consolidado-o assim...
...ou, ainda, porque alguns “experts” em TI (mas não em linguística) se reuniram e resolveram combinar que a pronúncia, a partir daquele momento - e a partir de uma postura mais inicialista tal qual já fazemos com as siglas -, seria aquela. E, quem sabe, por isso, alguns preferem a escrita com maiúsculas (ID) ao invés de minúsculas (id), assim, visualmente se forja uma sigla, que a posteriori poderia ser tratada (e lida) como tal. Mas esse parágrafo já é pura suposição.
Dá para se concluir, então, que “id”, “Id” ou “ID”, quando há uma relação com sistemas de computação, serão, pelo menos pela maioria, chamados de “Ái Dí”, mas não porque, em termos práticos, isso traga algum benefício de comunicação, mas sim por convenção e cosmética, pois, além do fator “costume do uso”, soa mais bonito falar assim. No fundo, convencionar sua pronúncia para “Íd” ou “Ái Dí”, no discernimento popular, daria exatamente no mesmo, mas a segunda alternativa... é mais chique.
Enfim, não sei o quanto esses questionamentos podem fazer sentido, mas entendendo que não há prejuízo de confusão com o “id” da psicanálise - porque, ao compreender o contexto, já fazemos a distinção -, não vejo erro em se utilizar uma pronúncia alternativa para um termo que, pela lógica da formação, não tem coerência com sua pronúncia padrão.
Em outras palavras, ninguém deve ser repreendido apenas por não estar em conformidade com a convenção.
Um forte Íd na bochecha.
Devaneio questionando se faz sentido ou não a pronúncia habitual que damos a ID.
Palavras chave: id, Id ou ID, pronuncia de id, escrita de id, origem de id, termo id, identificador digital, identifier, identity