Pedrinho da Rocha

Entrevista por: João Taboada - Webdesigner
Designer gráfico, artista plástico, ilustrador, programador PHP e músico, dentre outras coisas...

16 de abril de 2017 | 539 hits  



Pedrinho da Rocha é designer, ilustrador e publicitário. Iniciou sua vida profissional fazendo leiautes para blocos de carnaval ainda nos idos de 1977 (para o Traz os Montes), sendo o responsável pela concepção de muitas ideias e soluções visuais para trios elétricos e blocos como Camaleão, banda Beijo, Chiclete com Banana, Pinel, Crocodilo, Cheiro e Asa de Águia, dentre diversos outros. Em fevereiro de 2017 realizou a exposição Carnaval Elétrico: Pedrinho da Rocha - 40 Carnavais, no Shopping Salvador, onde contou sua trajetória profissional através dos outdoors, trios, cartazes e abadás que desenvolveu ao longo desses efervescentes 40 anos de carreira.


VA - Como e quando você percebeu que tinha inclinação para trabalhar na área de comunicação visual?
PR - Sempre desenhei, mas nunca planejei trabalhar nessa área. Me imaginava alguém na área da ciência. Verdadeiramente, o dom de desenhar era um ônus para mim desde cedo: todos pediam para eu desenhar algo. E nem gostava tanto de desenhar, preferia criar. O desenho era um meio e não um fim.


VA - Você tem formação acadêmica em alguma atividade nas quais trabalha? Isso faz diferença em seu ofício?
PR - Não. Infelizmente, não. E faz diferença, sim. O conhecimento acelera o resultado e abre perspectivas. Adoraria conhecer outras técnicas artísticas como escultura, modelagem e xilogravura. Mas fiquei preso ao desenho.


VA - Você atende muitas empresas ligadas ao carnaval. Isso é uma escolha sua ou aconteceu naturalmente?
PR - Naturalmente. Sempre achei que trabalhar para o carnaval era algo transitório. Mas foi onde consegui sobreviver.


VA - Seu nome já é bastante conhecido e conceituado na área e as empresas/artistas lhe procuram porque confiam em seu trabalho. Quando você cria, a aprovação das concepções já é uma coisa quase certa?
PR - Por mais sucesso que se tenha conseguido nessa área, o passado não garante o futuro. É fundamental convencer sempre o cliente. Até porque trata-se do dinheiro dele. E, nem sempre o mais difícil é criar um bom trabalho, mas acertar o que o cliente deseja.


VA - Pedrinho da Rocha é um profissional que trabalha sempre sozinho (porque as pessoas esperam que a criação saia da pessoa Pedrinho da Rocha) ou você também cria em parceria?
PR - Desses 40 anos, só trabalhei 15 sozinho. No restante, tive vários funcionários e colaboradores; uns 30, calculo. E meu processo de criação é totalmente aberto: tive alguns casos de estagiários participarem ou criarem trabalhos logo nos seus primeiros dias. Até o cliente sempre participou da criação. Se tenho uma marca, acho que é essa: nunca fui autoral. Mas de alguma forma, algo transpassa esse processo caótico determinando um estilo. Isso fica evidente pelo conjunto dos trabalhos nessas 4 décadas.


VA - Você já "brincou" com a forma de algumas marcas como, por exemplo, a do bloco Camaleão e a do Crocodilo. Em design, quando criamos uma marca gráfica, determinamos para ela uma série de aplicações mas, impomos, também, alguns limites para suas variações. Como os blocos de carnaval recebem essa liberdade no tratamento de suas marcas?
PR - Na década de 80, nenhum bloco tinha uma marca definida. Eles achavam que tinha que mudar todo ano. Isso tinha a ver com o fato de que o bloco vendia por ano, e todo novo carnaval implicava em nova arte, nova programação visual como forma de atrair o cliente/folião para aquele novo período. Mas esses blocos foram virando empresas, produtoras, e insisti para criarem marcas institucionais. Apesar da resistência, começaram a concordar e o Bloco Camaleão e a Banda Asa de Águia foram os primeiros a investirem nessa filosofia. Mas, por conta do histórico e tipo de negócio, essas empresas sempre foram muito abertas (além de incentivarem) a "brincadeira" com suas marcas. Acho até que foram vanguardas do que hoje vemos marcas como a Skol, Schin e tantas outras fazerem. Talvez até por uma certa proximidade e - conseqüente inspiração - com essas empresas de entretenimento.


VA - Você já fez experimentos também com imagens conhecidas como o Abaporu, quadro de Tarsila do Amaral, para o bloco Crocodilo. Houve alguma crítica em relação a isso? Os foliões do bloco tinham algum entendimento sobre aquela figura?
PR - Não houve um retorno sobre isso. Pelo menos não para mim. Quanto ao entendimento, acredito que por se tratar de foliões seguidores da cantora Daniela Mercury, sim. Ela tem essa pegada cultural e boa parte de seus fãs, por tabela, também curtem.


VA - Quando você começou, os computadores já existiam, mas ninguém imaginava a revolução que eles iriam causar através da chegada dos PCs, na década de 1980. E, ainda nesta década, muita coisa visual era feita à mão. Havia, ao meu ver, uma certa liberdade para se trabalhar - com fontes (letras) por exemplo, pois eram todas desenhadas - e, em contrapartida, uma menor permissão para errar. O PC, para você, interferiu em sua maneira de criar, lhe limitando ou expandindo de alguma forma?
PR - Muito interessante esse assunto. A maioria dos artistas gráficos que estão aí no mercado não conhecem a Era Pré PC. Acho que me informatizei em 1992, antes das agências de propaganda em Salvador, e isso mudou tudo. Não de imediato, porque houve um período híbrido onde as gráficas não eram informatizadas ainda, então, nem sempre o que criávamos com os recursos de um PC ou Mac conseguíamos imprimir porque as gráficas não tinham como transferir aqueles dados para os fotolitos. Hoje, nem fotolito existe. Mas o processo de criação deixou de ter limites. Por outro lado, por não ter limites e por ter tantas ferramentas como PhotoShops e Cia, passou-se também a usar-se em excesso efeitos em detrimento da criação. Olhando para trás, hoje, percebo que, por falta de recursos, éramos mais originais na essência. Enfim, ganhamos rapidez, qualidade, recursos ilimitados, mas perdemos o tempo da criação e a originalidade.


VA - Você foi o criador do abadá: ao mesmo tempo que iniciou uma nova tradição, acabou destronando outra (a mortalha). A chegada dos camarotes alterou também outra tradição, a do carnaval pipoca, evidenciando um pouco mais, na minha opinião, as diferenças sociais. Os circuitos da folia também vêm mudando de um lugar para outro ao longo do tempo. Como você, que é um agente transformador do carnaval, enxerga essas mudanças todas? Isso é positivo, negativo ou é apenas um processo natural do qual não há como fugir?
PR - Sou de uma Geração que freqüentou as Festas de Largo e sempre achei que o Carnaval de Salvador era a maior de todas: uma grande Festa de Largo onde as pessoas se encontravam, se viam, se divertiam e onde a música era só um BG; um coadjuvante. Nas últimas três décadas tudo isso mudou: as Festas de Largo perderam seu sentido porque as pessoas que originalmente as organizavam, que eram a alma daquilo, foram morrendo e as novas gerações perderam esse elo cultural. Salvador inchou. Quase ninguém sabe o que significa a Festa do Rio Vermelho e de Itapuã, ou da Pituba e da Ribeira. É só a festa; a cachaça, como se diz. Assim também foi com o Carnaval. Tirou-se as cadeiras, as barracas, as marquises e, com isso, foi-se tirando o espaço das famílias no Carnaval. Longe de querer ser um conservador nessa afirmação, mas esse descaso espantou os mais velhos da festa. Mas eram os mais velhos que levavam as crianças para a Avenida (foi assim comigo desde os 3 anos). Se as crianças não curtem o carnaval na infância, não curtirão na adolescência. Quebrou-se um elo. Como não vivenciaram essa experiência na infância, quando vão ao carnaval não o fazem por um impulso cultural de desfilar no chão da rua como seus pais o fizeram, mas como espectadores em algum camarote. Eles (e elas) não têm ideia do que seja pular com uma garota linda e suada, de shortinho e tênis que acabou de conhecer; preferem as assépticas de salto alto no ar condicionado do camarote... mas isso é romantismo e a história não volta. Não vale chorar, rs.


VA - Você já criou diversos leiautes para carrocerias de trio elétrico. Como é esse processo? Você simplesmente elabora e a equipe que vai montar "se vira" ou existe alguma conversa no decorrer do processo sobre a viabilidade técnica daquela concepção?
PR - Comecei no carnaval decorando trios. Passava uma, duas semanas em cima de andaimes, todo sujo de tinta. Muitas vezes pintávamos os trios na rua. Depois surgiram os galpões. Pelos anos 90 comecei a ter uma equipe de apoio, mas eu desenhava e dava o acabamento. Lá por 1997 começaram a surgir os recursos de plotter e, depois, impressão digital em lona perfurada - que permitia a passagem do som. Mas, desde o início, sempre me preocupei em ter um projeto. Sem falsa modéstia, nesse quesito, eu ajudei a transformar o conceito de trio elétrico. O auge disso começou a acabar lá pelo início dos anos 2000, quando as bandas e o patrocinador passaram a mandar. O trio deixou de ser uma joia cultuada pelo folião e virou só uma máquina de som. Mas como carnaval é fantasia, isso empobreceu o evento.


VA - Dentre os tipos de trabalhos que você já fez o que mais lhe realiza? Leiautes para trio, cartazes, marcas, abadás ou o quê?
PR - Marcas e trios e cartazes (os antigos). Nessa ordem.


VA - E dentre todos, existiu algum que mais você guarda no coração?
PR - O segundo Trio Elétrico da Coca-Cola, no Beijo. Foi o último que eu mesmo pintei. Tecnicamente ficou muito bom. Hoje, mesmo com recursos tecnológicos, não conseguiria aquele resultado. Gosto também das marcas do Asa e Camaleão e dos trios Fobicão (Dodô & Osmar) e Cheiro/Philips de 1999.


VA - Em relação à exposição Carnaval Elétrico: Pedrinho da Rocha - 40 Carnavais, foi complicado compilar aquele material todo? Haverá uma nova edição?
PR - Um pouco. O tempo para a curadoria foi curto. Ali, calculo, tenha uns 5% do que tenho guardado. Só procurei nuns 20% dos arquivos.


VA - Para as pessoas que estão começando na área de criação visual, você deixaria algum recado?
PR - Dar conselho é sempre difícil. Cada um pode obter sucesso ao seu jeito e de acordo com seus potenciais e aspirações. Particularmente, trabalhei muito e sempre tentei manter o pé no chão. Talvez meu maior defeito.


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Conheça mais sobre Pedrinho da Rocha em seu blog:
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E sobre a exposição Carnaval Elétrico em:
www.flickr.com/photos/carnavaleletrico
www.carnavaleletrico.com.br

Abaixo, imagens de alguns de seus trabalhos:







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