Paulo Ormindo de Azevedo - Arquiteto

Entrevista por: João Taboada - Webdesigner
Designer gráfico, artista plástico, ilustrador, programador PHP e músico, dentre outras coisas...

27 de setembro de 2016 | 397 hits  



Paulo Ormindo de Azevedo é graduado em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, possui especializações em Geografia Urbana pela University of Wisconsin – Madison, Internacional de Prospecção Arqueológica pelo Instituto Politécnico de Milão, Specialisation Pour La Conservation Et La Restaura pela International Center Of Conservation And Restoration Of Monuments And Sites e doutorado em Perfezionamento Per Lo Studio Dei Monumenti pela Università degli studi di Roma Tre e trabalha atualmente com Arquitetura e Urbanismo. É também Professor titular da UFBA e colunista do jornal A Tarde, atividade em que demonstra ser um grande defensor de políticas públicas voltadas à melhoria do espaço urbano e das condições sociais de nossa cidade e do nosso estado.



VA – O senhor é formado em Arquitetura pela UFBA. Quando percebeu que tinha inclinação para a área e que queria seguir a profissão?
PO - A família de meu pai era de médicos e farmacêuticos. Ele seguiu a medicina, mas acabou se transformando num antropólogo genial. A de minha mãe era de engenheiros e ela, embora tivesse uma formação como professora de música, que nunca exerceu, sempre gostou de construir. Eu e meus irmãos passamos a infância e adolescência numa casa sempre reformada e ampliada por minha mãe. Acho que veio daí o gosto pela construção e projeto. A metamorfose do projeto em construção quando feita com paixão é uma epifania, que só descobri quando construí meu primeiro projeto.


VA – Ser professor da Universidade, hoje, é compensatório? Vale a pena ensinar mesmo considerando o deficit de investimento na educação de forma geral?
PO - Eu diria que sim. Não do ponto de vista econômico, que não é tudo, senão do ponto de vista político, da comunicação com os colegas e alunos, da discussão com a sociedade do que é viver a cidade. E foi por esta linha que me transformei em um periodista.


VA – “A Alfândega e o Mercado. Memória e Restauração” e “Estado e Sociedade na Preservação do Patrimônio” são dois livros de sua autoria que abordam memória e preservação. Porque surgiu a necessidade de escrever livros sobre estes assuntos e onde podem ser encontrados?
PO - O primeiro livro escrevi porque fiz a restauração da Alfândega/Mercado Modelo depois de seu incêndio em 1984. A restauração é uma intervenção muito grave em um documento histórico. É como uma cirurgia, quando todos os tratamentos falham, tanto pode salvar e dar uma sobrevida ao paciente, como apressar sua morte. Eu tinha que dar uma explicação à sociedade do que fiz naquele monumento. Toda restauração deveria ser registrada em um livro, o que raramente é feito. Quis também expressar o que eu entendia como restauração. O segundo é resultado de um seminário que realizei como presidente do Instituto de Arquitetos da Bahia. É uma coletânea de comunicações feitas nesse evento, inclusive a minha. O primeiro (livro) está esgotado e o segundo creio que ainda pode ser encontrado na Livraria Cultura, ou no IAB. Mas tão importantes quanto estes são os seis volumes que escrevi do Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia, que pode ser encontrado nas bibliotecas da Faculdade de Arquitetura da UFBA e do IPAC.


VA – Que obras o senhor considera como grandes representações arquitetônicas nos âmbitos mundial e nacional e por quê?
PO - São tantas que se eu apontasse uma estaria discriminando as demais. Prefiro não indicar nenhuma. Mas vou falar genericamente. Adoro as cidades medievais italianas, sem nenhum grande monumento, sem hierarquias monumentais. Cada viela e esquina é uma surpresa. Gosto das vilas renascentistas, que são pura geometria. Da arquitetura barroca gosto da malandragem dos arquitetos e pintores criando falsas ilusões, brincando com nós espectadores. As cidades do Iluminismo, como Turim, a Baixa de Lisboa e parte de Paris, são um pouco monótonas, mas nos dão aquela falsa segurança que nada escapou do controle dos enciclopedistas. Detesto a arquitetura dita pós-modernista, por falta de identidade própria.


No Brasil não temos grandes monumentos, como as catedrais e palácios europeus, as pirâmides dos egípcios, maias e astecas ou os templos orientais. Mas temos uma arquitetura miúda, colorida e uniforme pelas limitações tecnológicas, subindo e descendo ladeiras, que fazem das cidades coloniais mineiras e nordestinas manifestações urbanísticas que tem um valor universal próprio, diverso das vilas de Portugal. Na contemporaneidade, destaco a obra de Oscar Niemeyer como de importância mundial, ainda que com altos e baixos


VA – O senhor é colunista do jornal A Tarde onde escreve toda semana e, a supor pelos seus textos, é grande conhecedor dos problemas da Cidade do Salvador e de nosso estado no que diz respeito ao sistema viário e à infraestrutura. Caso fosse indicado para ocupar uma secretaria como a de Planejamento, a do Meio Ambiente ou a de Infraestrutura o senhor aceitaria? E por quê?
PO - A depender do apoio que tivesse do prefeito poderia aceitar. Mas não há nenhum perigo que isso aconteça. Nenhum prefeito aceitaria um secretário que pensasse autonomamente.


VA – Sendo uma cidade antiga, Salvador, ao contrário de Brasília, nasceu sem planejamento? É complicado se consertar os problemas urbanos de uma cidade como a nossa, como, por exemplo, o de mobilidade?
PO – Salvador nasceu com um plano em xadrez, trazido por Luiz Dias, que ainda se pode observar no Distrito da Sé. Mas a cidade se adaptou à topografia na sua expansão. A cidade de San Francisco, nos EUA, é muito acidentada e tem o melhor sistema metropolitano de transporte norte americano, o BART - Bay Area Rapid Transit. Quando um velho viaduto na periferia caiu, durante um sismo, há alguns anos, as autoridades resolveram não o reconstruir e transformar a área em um parque. A população aplaudiu.


VA – Ainda em relação à pergunta acima, nossa classe política tem se mostrado preocupada com esses problemas? Habitação, trânsito, conservação de monumentos e logradouros...
PO – A classe política, genericamente, está preocupada primordialmente em permanecer no poder e adota politicas imediatistas, populistas. Alguns políticos estão realmente preocupados com estas questões, mas não tem nenhuma visão crítica. Como os órgãos de planejamento dos municípios e dos estados foram desativados, estas questões passaram às mãos das empreiteiras, que só visam o lucro.


VA – Salvador, como mostram as propagandas, é realmente uma cidade bonita? O que está faltando nela?
PO – João de Barros, autor da canção Copacabana, inquerido sobre a permanência da beleza de Copacabana, disse: "olhando para o mar, sim". Eu diria o mesmo de Salvador. Nos meus muitos anos de vida nunca vi um prefeito preocupado com a beleza da cidade. O Rio de Janeiro teve alguns governadores e prefeitos com essa preocupação. O último deles foi o polémico Carlos Lacerda, que fez o Aterro do Flamengo e alargou a praia de Copacabana.


VA – A Arquitetura e o Urbanismo já acompanham o homem há bastante tempo e exercem um papel importante no desenvolvimento das sociedades, não apenas ajudando a projetar cidades bonitas, mas, acima de tudo, funcionais, onde as pessoas possam se sentir integradas e não segregadas. Ser arquiteto atualmente é pensar no social?
PO – Esta é uma pergunta dirigida para aqueles que têm uma formação mais urbanística e política. Lerner em Curitiba, Paulo Conde no Rio de Janeiro, Diógenes Rebouças e Lélé aqui em Salvador tinham esta preocupação. Entre os arquitetos mais novos não vejo esta preocupação, mas não tardará a aparecer.


VA – O senhor teria alguma mensagem a deixar para quem está iniciando na Arquitetura e no Urbanismo hoje?
PO – Sim. Façam estágios em pequenos escritórios e canteiros de obra e leiam tudo, sempre contestando. Para relaxar e se universalizarem: viajem, conheçam outras cidades e desenhem!



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Publicações por Paulo Ormindo de Azevedo:

• Proposta de Valorização de três monumentos Baianos, 1974
• Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia, 6 v. 1975-1999
• Cusco ciudad histórica: continuidad y cambio, 1ª ed. 1981
• La casa cusqueña (co-autoria), 1981
• A Alfândega e o Mercado. Memória e Restauração, 1985
• Estado e Sociedade na Preservação do Patrimônio, 2013
• Cusco: Continuidad y cambio, 2 Ed. 20
• Thales de Azevedo: a Arte de Escrever e Pintar, 2016

 
Onde encontrar mais:

https://pauloormindodeazevedo.wordpress.com
http://ruadegentecoletaneaormindo.blogspot.com.br
https://www.facebook.com/paulo.ormindodeazevedo





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