Seu aplicativo, seu amigo

Artigo por: João Taboada - Webdesigner
Designer gráfico, artista plástico, ilustrador, programador PHP e músico, dentre outras coisas...

03 de agosto de 2017 | 74 hits  



Até há pouco tempo existia uma rinha muito grande entre usuários de softwares destinados às áreas visuais. Cada usuário achava que o aplicativo que utilizava para executar seus trabalhos era melhor que o do outro, por tais e tais características. De fato, existem softwares e softwares. Quando digo isso, falo por dois motivos: um, porque cada um tem sua função particular. E outro, porque há softwares mais bem elaborados e que acarretam menos bugs quando se trabalha com eles. Isso está relacionado ao investimento que a empresa faz no programa - cujo objetivo é sempre melhorá-lo - e, também, à capacidade dos profissionais envolvidos, como os programadores e os analistas de sistemas.


O aplicativo, software ou programa (ou qualquer outro nome que você possa dar a ele) não pensa. Ele, pelo menos por enquanto, ainda é um escravo virtual do profissional. Isso vale para qualquer área em que se trabalhe e que se utilizem computadores, o que inclui a nossa área de atividades visuais cujos profissionais são fotógrafos, designers, webdesigners, ilustradores, videomakers, etc. Como nossos professores costumam dizer, e com razão, programas são apenas ferramentas, similares àquelas que usávamos antes da popularização dos computadores pessoais, mas que permitem que uma infinidade de pessoas que tem "problemas" em se expressar manualmente, possa encontrar neles a solução para suas limitações.


A despeito do claro entendimento de que softwares não pensam, ainda existe um ressentimento dos usuários a respeito de como os programas deveriam trabalhar. Blogs e sites de design têm questionado bastante essa postura de profissionais e amadores que não aceitam certas "particularidades" dos softwares e isso tem ajudado muito a minimizar esse melindre. Nós, como seres inteligentes, temos que compreender que um programa é elaborado de acordo com o entendimento do programador, ou da equipe que trabalha em seu desenvolvimento, e não de acordo com nossas expectativas particulares. Cada atividade tem suas peculiaridades e cada profissional (ou mesmo amador) enxerga essas peculiaridades com um grau de importância diferente. Para o desenvolvedor, o programa deve dispor de certos recursos que ele considera importantes para aquela atividade, mas isso nem sempre condiz com as reais necessidades dos usuários. Mas, justamente para minimizar essas diferenças entre o que pensam os desenvolvedores e os usuários, os fabricantes de softwares fazem enquetes em seus sites ou nos próprios programas para que esses usuários exponham suas carências. Assim, quanto mais gente se manisfesta, mais os softwares evoluem.


Outra coisa importante é ter o bom senso de enxergar que, se um programa foi desenvolvido para uma atividade que não faz parte de sua realidade, então este programa não foi feito para você. Exemplo: designers não gostam muito da MicroSoft porque ela não faz o CorelDraw, o Illustrator, o Photoshop ou o Indesign. Ela faz o Word, o Excel e o PowerPoint. Designers não usam estes programas em seu dia a dia simplesmente por um motivo: eles não foram feitos para o designer mas, sim, para outro público que tem outras necessidades. Sendo assim, não faz sentido reclamar. Seria, inclusive, meio ridículo você entrar numa churrascaria e ficar se queixando que inauguraram uma loja de produtos vegetarianos bem ao lado só porque você não gosta. Cada um utiliza o que lhe interessa. O importante é ter oportunidade para todos, assim, cada um consegue desenvolver corretamente sua atividade (que é diferente de indivíduo para indivíduo) e a sociedade se completa.


Lembre-se que a secretária de sua empresa utiliza o Word para fazer relatórios e documentos que não precisam de tanta diagramação. O MS Word possui muitos recursos, mas apenas com conhecimentos básicos já é possível se fazer muita coisa. O bom é isso: é que o usuário não precisa de tanto entendimento para desempenhar suas atividades e ainda assim consegue trabalhar de modo satisfatório. E se você acha que o Indesign é melhor do que o Word é porque o Indesign foi feito para você (e o Word, não). Mas para a secretária, o Word é melhor. Além disso, a gente pode ter certeza que uma secretária não se sentiria ofendida por você usar o Word para fazer algum orçamento ou currículo mas você poderia se sentir ofendido se a secretária usasse o Indesign para fazer os documentos do chefe e, provavelmente, diria alguma bobagem do tipo: "Que absurdo, uma simples secretária usando o Indesign". Mas se até programas extremamente rudimentares como o Bloco de Notas do Windows já são uma mão na roda quando se precisa de um texto puro (desformatado), por exemplo, imagine, então, programas com mais recursos.


Além do que, um aplicativo não foi feito para ser o outro. Não faz sentido achar que o Google Chrome tem que ser igual ao FireFox ou vice-versa, mesmo que, a princípio, eles tenham o mesmo objetivo. Os programas podem ser similares, mas se eles conseguem atender a pequenas diferenças de necessidade de cada usuário, então esse é o ideal. Se você não pensa como os outros indivíduos, então não há porque de os programas atenderem apenas às necessidades deles. E voltando à questão dos bugs, sabemos que eles existem e não são difíceis de indentificar (principalmente quando perdemos um trabalho por sua causa). Reclamamos com as empresas e elas, aos poucos, vão consertando. Mas, além dos bugs, reclamamos também de seus recursos, só que, nem sempre, quando nos deparamos com aplicativos que tem recursos que achamos inúteis ou que não atendem às nossas expectativas, isso é ruim. Para o outro usuário pode ser bom. 


O correto é a gente sempre pensar que os programas estão aí para ajudar, por mais que alguns não sirvam pro nosso trabalho ou pra qualquer outra coisa que a gente precise. Para alguém, com certeza, eles vão servir e vão facilitar muito sua vida. Para entender melhor o que eu estou dizendo, basta retroceder no tempo e pensar que no início da década de 1990 existiam muito poucos softwares de edição gráfica e os PCs ainda eram caros. Muita gente, como eu, fazia seus leiautes à mão com lápis, régua, hidrocor e tinta. Hoje, com tanta informação, programas e recursos diversos disponíveis, fazemos em minutos o que demorávamos horas. No meu entender, atrelar a qualidade de seu trabalho a um software é não confiar que você mesmo é capaz. É delegar seu talento a uma máquina e aos recursos que ela oferece - e achar que, por causa dela, seus problemas estarão resolvidos - ao invés de entendê-los apenas como auxiliares. Não existe programa burro pois programa não tem vida. O que existe é usuário sem talento (pelo menos para certas atividades) e que coloca a culpa nos programas.


Enfim, por todas essas coisas, não dá para ficar inimigo de aplicativo. Se qualquer computador 486 da década de 1980 já ajudava muito, o que dizer então dos computadores de hoje com os programas de hoje? Aplicativos não são gente, então, não faz sentido reclamarmos com eles ou até ficarmos de calundú. Assim, é esquisito usarmos o Notepad para "purificar" nossos textos e depois ficarmos dizendo que ele é uma porcaria. Mas, assim como pessoas, nossos aplicativos preferidos, os do nosso dia a dia, nos despertam simpatia, uma certa lealdade e falamos deles como se fossem nossos grandes amigos. E de certa forma, são. E os aplicativos que não usamos não são necessariamente ruins. Mas com certeza vão estar auxiliando outras pessoas que necessitam deles e estarão ao nosso dispor no dia em que mudarmos de ideia e precisarmos de seu auxílio.


Nós guardamos ressentimento. Os aplicativos, não.
Grande abraço.





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